A violência armada nunca cria um ponto estatisticamente mais frio que o esperado
O Lastro testou, pela primeira vez nesta leva, se existe alguma área da Região Metropolitana do Rio que seja estatisticamente mais fria que o esperado: um hexágono cuja vizinhança concentra menos violência armada do que a média da própria região, com confiança estatística, não apenas menos ocorrências no bruto. O teste roda sobre uma grade regular de hexágonos (H3) cobrindo os 21 municípios da RM-Rio, cruzando cinco variáveis (total de ocorrências, ocorrências com morte, com e sem presença policial no momento do fato, e motivo disputa entre grupos armados) com treze recortes de período cada (2017 a 2026 ano a ano, mais o acumulado inteiro e as duas metades da série), 65 cenários ao todo, 600.730 células calculadas pelo método estatístico Getis-Ord Gi*, o mesmo usado em geografia pra separar concentração espacial real de simples ruído.
O resultado surpreendeu pela ausência, não pela presença: nenhuma das 600.730 células chegou perto do patamar que confirmaria um ponto frio. O menor z-score do Gi* observado em toda a base, considerando as 65 combinações de variável e período, foi -0,81, no cenário de ocorrências com morte no acumulado 2017-2026, uma folga enorme em relação ao patamar mínimo de significância estatística que o método exige pra confirmar um ponto frio. Em nenhum cenário, em nenhuma variável, em nenhum ano, uma única célula sequer chegou perto desse patamar. O mapa de concentração territorial do Lastro tem sete cores na legenda, três tons de azul pra ponto frio, mas, até aqui, nenhum hexágono jamais acendeu essa cor.
A explicação não é falha do método, é a própria forma como a violência armada se distribui no espaço. Pra um hexágono virar ponto frio, ele precisa ficar significativamente abaixo da média da sua vizinhança, não abaixo da média da região inteira. Como a esmagadora maioria dos 9.242 hexágonos já registra poucas ou nenhuma ocorrência, mesmo nos cenários de maior volume, um hexágono vazio cercado de outros hexágonos também vazios não está abaixo do esperado: ele está exatamente no esperado. A violência armada na RM-Rio segue um padrão de poucos núcleos muito concentrados cercados por um território extenso e uniformemente neutro, não um tabuleiro de áreas quentes e frias intercaladas. Pra existir um ponto frio de verdade seria preciso um "buraco" de baixa violência cercado por vizinhança de alta violência, e esse tipo de vizinhança praticamente não existe fora dos próprios núcleos quentes.
Isso não quer dizer que toda a região é igualmente violenta, nem que não existam áreas mais seguras que outras. Quer dizer algo mais específico: o teste estatístico usado aqui, desenhado justamente pra separar concentração real de ruído, nunca confirma uma área como mais segura que sua vizinhança além do que o acaso já explicaria. Fora dos núcleos identificados como quentes, o padrão territorial da violência armada na RM-Rio é neutro, não confirmadamente baixo. A diferença é sutil, mas importa: dizer que uma área é neutra é dizer que ali o número de ocorrências não foge do que já seria esperado pra região como um todo; dizer que é fria seria dizer que ali a violência é estatisticamente mais rara que isso, e essa segunda afirmação, pelos dados analisados, nunca se sustentou.
O achado é uma faceta do mesmo fenômeno documentado noutras Evidências desta leva: a violência armada na RM-Rio se concentra fortemente em poucos territórios, deixando uma extensão muito maior onde ocorrências são raras, mas não estatisticamente notáveis por sua ausência. Onde há concentração, o Lastro consegue confirmá-la com rigor; onde não há, os dados não permitem ir além de dizer que ali o padrão é o comum.
Nota metodológica
Análise sobre grade hexagonal regular (H3) cobrindo a Região Metropolitana do Rio, usando o método estatístico Getis-Ord Gi*, a mesma abordagem descrita na sub-aba Concentração territorial, em Dados. Foram testadas 65 combinações de variável e período, cada uma gerando um valor por célula pras 9.242 células da grade, 600.730 linhas ao todo. O resultado (nenhuma célula fria em nenhuma combinação) é consistente em toda a base, não um caso isolado de uma única variável ou período.
O Fogo Cruzado não participa da produção desta análise. É usado aqui só como fonte de dados públicos; o cruzamento, os indicadores e as conclusões são inteiramente do Lastro, sem qualquer envolvimento das organizações citadas.
Quem mantém o Lastro não tem vínculo empregatício, ideológico ou político com nenhuma das partes retratadas nos dados, seja poder público, forças de segurança, grupos armados, partidos ou movimentos. O que aparece aqui são padrões que emergem do cruzamento estatístico dos dados, com os mesmos métodos de análise aplicados a qualquer outro assunto, não uma opinião pessoal sobre o tema.
Como citar
Lastro. “A violência armada nunca cria um ponto estatisticamente mais frio que o esperado”. Publicado em 3 de setembro de 2026. Disponível em: lastro-rj.vercel.app/descobertas/ausencia-de-ponto-frio
