Os delitos do Rio seguem um padrão sazonal
A série mensal do ISP-RJ registra cada delito do Estado, mês a mês, desde 2003. Uma série desse tamanho permite fazer uma pergunta que a manchete de jornal nunca responde: qual é o mês preferido de cada crime? Não no sentido de um ano específico, mas como padrão que se repete há uma década. A resposta existe, é forte, e muda de crime pra crime.
Antes do resultado, o cuidado. Comparar meses de anos diferentes exige neutralizar a tendência: o roubo despencou no Estado depois de 2017, então qualquer mês de 2018 é maior que qualquer mês de 2023, e isso não é sazonalidade, é queda. O método aqui divide cada mês pela média do próprio ano, e só então tira a média entre os anos de 2016 a 2025. O que sobra é o padrão puro: quanto cada mês fica acima ou abaixo de um mês típico daquele mesmo ano.
O caso mais gritante é o roubo de carga. Um dezembro típico fica 30% acima de um mês comum, e novembro fica 6,7% acima. Juntos, os dois últimos meses do ano concentram quase um quinto de todo o roubo de carga anual. Em números absolutos da última década: um dezembro médio tem 645 roubos de carga; um setembro médio, o vale do ano, tem 437. Dezembro foi o mês campeão do ano em 5 dos 10 anos da série. A leitura é a que o senso comum sugere, mas agora com tamanho medido: no fim do ano circula mais mercadoria, e a carga roubada acompanha.
O detalhe que transforma a observação em achado é o contraste com o roubo de rua, que faz o caminho contrário: cai 4,8% em novembro e 8,4% em dezembro, os dois piores meses do ano pra esse tipo de crime. Não é que dezembro tenha “mais crime” em geral. É o alvo que muda: menos o pedestre, mais a mercadoria em trânsito.
| Mês | Roubo de carga | Roubo de veículo | Roubo de rua |
|---|---|---|---|
| Janeiro | +5,7% | +7,9% | +6,1% |
| Fevereiro | -9,7% | +0,9% | -1,8% |
| Março | +1,9% | +6,8% | +6,5% |
| Abril | +0,2% | -1,7% | -2,3% |
| Maio | +5,0% | -1,7% | +1,6% |
| Junho | -5,8% | -7,8% | -1,2% |
| Julho | -8,4% | -10,2% | +3,1% |
| Agosto | -8,1% | -6,5% | +2,1% |
| Setembro | -13,0% | -5,0% | -1,9% |
| Outubro | -4,4% | +2,5% | +0,9% |
| Novembro | +6,7% | +7,0% | -4,8% |
| Dezembro | +29,9% | +7,8% | -8,4% |
E a Black Friday? A série é longa o bastante pra responder. Na década de 2003 a 2012, antes da data existir no varejo brasileiro, o pico de dezembro já estava lá (+23,5%), porque o Natal sempre movimentou carga. Mas novembro era um mês comum: apenas 2,4% acima da média. Na década recente, novembro subiu pra 6,7%. O dezembro do roubo de carga é antigo; o novembro quente é fenômeno da era Black Friday.
O roubo de veículo conta uma história diferente, e mais surpreendente: o mês preferido mudou de época. Na década antiga, o campeão disparado era março (+11,3%), e o fim do ano ficava abaixo da média. Na década recente, o padrão virou um bloco de verão: novembro, dezembro e janeiro rodam todos entre 7% e 8% acima da média, e em 8 dos 10 anos o mês campeão caiu entre novembro e março. Dezembro literalmente trocou de sinal entre as duas épocas:
| Mês | 2003 a 2012 | 2016 a 2025 |
|---|---|---|
| Janeiro | +5,3% | +7,9% |
| Março | +11,3% | +6,8% |
| Julho | -5,1% | -10,2% |
| Novembro | -6,0% | +7,0% |
| Dezembro | -4,0% | +7,8% |
Por que o regime mudou é pergunta que o dado mensal sozinho não responde. Dá pra listar hipóteses plausíveis, como mais circulação e mais veículo na rua no verão recente, mas seria especulação apresentada como achado, e não é esse o papel desta análise. O que o dado sustenta é a descrição: o padrão de uma década não serve de régua pra outra, nem dentro do mesmo crime.
Essa é, aliás, a utilidade prática do calendário. Quando uma manchete diz que o roubo de carga “subiu em dezembro”, a pergunta certa é: subiu além dos 30% que todo dezembro sobe? Comparar um mês com o mês anterior, sem régua sazonal, produz alarme ou alívio falsos o ano inteiro. Por isso a aba Estado deste app compara sempre com o mesmo período do ano anterior, e a sub-aba Análises estatísticas mostra o padrão sazonal de qualquer indicador, em qualquer município, batalhão ou delegacia.
Nota metodológica
Os dados vêm da série histórica mensal por delegacia do ISP-RJ (Instituto de Segurança Pública), Estado inteiro, janeiro de 2003 a julho de 2026. O índice sazonal de cada mês é calculado assim: o valor do mês é dividido pela média mensal do próprio ano, e o resultado é a média desse quociente entre os anos da janela (2016 a 2025 na década recente, 2003 a 2012 na antiga). Anos incompletos ficam de fora. “Roubo de rua” é a soma oficial de roubo a transeunte, de celular e em coletivo.
Limitações: são registros policiais, então medem o que é notificado. O roubo de carga tende a ter notificação alta (seguro e transportadora exigem registro), mas mudanças no hábito de notificar podem afetar as séries, especialmente as mais antigas. O dado é mensal e agregado: não permite ver dia, hora nem local do fato, e por isso o efeito da semana exata da Black Friday não é separável do novembro inteiro. Os índices descrevem padrão de calendário, não explicam causa. O cruzamento, o indicador e as conclusões são do Lastro e não representam posição do ISP-RJ.
O ISP-RJ não participa da produção desta análise. É usado aqui só como fonte de dados públicos; o cruzamento, os indicadores e as conclusões são inteiramente do Lastro, sem qualquer envolvimento das organizações citadas.
Quem mantém o Lastro não tem vínculo empregatício, ideológico ou político com nenhuma das partes retratadas nos dados, seja poder público, forças de segurança, grupos armados, partidos ou movimentos. O que aparece aqui são padrões que emergem do cruzamento estatístico dos dados, com os mesmos métodos de análise aplicados a qualquer outro assunto, não uma opinião pessoal sobre o tema.
Como citar
Lastro. “Os delitos do Rio seguem um padrão sazonal”. Publicado em 25 de agosto de 2026. Disponível em: lastro-rj.vercel.app/descobertas/calendario-dos-crimes
