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1 de setembro de 20263 min de leitura

A maioria dos feminicídios no Rio é cometida por companheiro ou ex-companheiro

O senso comum sobre violência contra a mulher tem um núcleo de verdade e um ponto cego. O núcleo: quando o crime é letal ou físico, o agressor é quase sempre alguém próximo, companheiro ou ex. O ponto cego: isso não vale igual pra todo tipo de violência. A base do ISP Mulher, do próprio ISP-RJ, registra a relação declarada entre agressor e vítima e o local do fato pra cada delito, somados ao longo de uma década de casos. Cruzando os dois, os dois lados dessa moeda aparecem lado a lado.

Relação com o agressor, participação sobre o total do delito
DelitoCompanheiroEx-companheiroSoma
Tentativa de feminicídio41,0%33,4%74,4%
Feminicídio46,7%14,1%60,8%
Lesão corporal dolosa32,7%21,5%54,2%
Ameaça19,1%30,2%49,3%
Estupro11,3%12,8%24,1%
Vítimas mulheres, registro de ocorrência; a base cobre 27 delitos ao todo, aqui os cinco mais numerosos entre os letais e físicos.

Tentativa de feminicídio é o mais concentrado de todos: companheiro ou ex responde por 74,4% dos casos. No feminicídio consumado a soma cai um pouco, 60,8%, ainda assim mais de seis em cada dez. Lesão corporal dolosa, o registro mais comum de toda a base (meio milhão de vítimas na década), segue o mesmo padrão, 54,2%. Homicídio doloso contra mulher, quando não é classificado como feminicídio, conta outra história: “sem informação” domina com 64,2% dos casos, e companheiro ou ex soma só 5,3%, sinal de que essas mortes tendem a vir de outro contexto, não do parceiro.

Estupro quebra o padrão sozinho: companheiro e ex somados dão só 24,1%, a maior categoria é “nenhuma” relação, 34,7%. A violência que mata ou fere é majoritariamente doméstica no Rio; a violência sexual contra mulher adulta, não.

Onde acontece confirma quem faz:

Local do fato, participação sobre o total do delito
DelitoResidência
Estupro de vulnerável75,5%
Feminicídio65,2%
Lesão corporal dolosa59,4%
Estupro58,5%
Ameaça57,4%
Importunação sexual26,0%
Residência é a da vítima; a base também registra via pública, estabelecimento comercial, ambiente virtual e outros locais.

Estupro de vulnerável chega a 75,5% dentro de casa, feminicídio a 65,2%. Importunação sexual, de novo, inverte: só 26,0% em residência, 37,5% em “outros locais” e 18,4% em via pública, o crime de rua e transporte que a base já indicava pela relação com o agressor.

O que fica: quem agride e onde agride quase sempre contam a mesma história, mas com uma exceção clara. No crime letal ou físico, e também no estupro, seja contra mulher adulta ou contra criança e adolescente, o local tende a ser a própria casa da vítima, mesmo quando, como no estupro, o agressor não é declarado como parceiro. A importunação sexual é a exceção de verdade, e nos dois eixos ao mesmo tempo: nenhuma relação de parceria predomina, e o crime acontece majoritariamente fora de casa, na rua ou em outro espaço público, o retrato de um crime de oportunidade cometido por estranho em trânsito, não de convivência doméstica.

Nota metodológica

Fonte: painel ISP Mulher, do ISP-RJ (Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro), Dossiê Mulher, vítimas do sexo feminino por registro de ocorrência. O painel não oferece exportação de dados brutos, só navegação visual por gráficos; os números aqui foram extraídos diretamente da visualização pública do painel, delito por delito. Relação com o agressor e local do fato são agregados de uma década de casos, sem quebra por ano nessas duas dimensões específicas.

Três delitos (crime de perseguição, crime de perseguição contra mulher em razão do gênero e crime de violência psicológica contra a mulher) têm essa quebra por relação e local indisponível na fonte original, falha do próprio painel do ISP-RJ, não da extração; por isso não entram nesta análise.

O ISP-RJ não participa da produção desta análise. É usado aqui só como fonte de dados públicos; o cruzamento, os indicadores e as conclusões são inteiramente do Lastro, sem qualquer envolvimento das organizações citadas.

Quem mantém o Lastro não tem vínculo empregatício, ideológico ou político com nenhuma das partes retratadas nos dados, seja poder público, forças de segurança, grupos armados, partidos ou movimentos. O que aparece aqui são padrões que emergem do cruzamento estatístico dos dados, com os mesmos métodos de análise aplicados a qualquer outro assunto, não uma opinião pessoal sobre o tema.

Como citar

Lastro. “A maioria dos feminicídios no Rio é cometida por companheiro ou ex-companheiro”. Publicado em 1 de setembro de 2026. Disponível em: lastro-rj.vercel.app/descobertas/dentro-de-casa