Área de disputa entre grupos armados muda de lugar; o resto da violência, não
O Lastro comparou, célula a célula, os pontos de concentração estatística de violência armada entre a primeira metade da série do Fogo Cruzado (2017 a 2021) e a segunda (2022 a 2026), pra testar se essas áreas mudam de lugar ao longo do tempo ou ficam sempre nos mesmos territórios. O teste roda sobre a mesma grade hexagonal H3 e o mesmo método Getis-Ord Gi* usados na sub-aba Concentração territorial, em Dados, repetindo a conta pra cinco variáveis: total de ocorrências, ocorrências com morte, com presença policial no momento do fato, sem presença policial e motivo disputa entre grupos armados.
Pra quatro das cinco variáveis, o território de concentração é bastante estável de um período pro outro: entre 73% e 76% dos hexágonos classificados como ponto quente (90% de confiança ou mais) na primeira metade da série continuavam ponto quente na segunda metade, mesmo com o número de ocorrências caindo bastante em três delas. Total de ocorrências, ocorrências com morte, com presença policial e sem presença policial: nas quatro, a geografia da concentração se mantém, o que muda é principalmente o quanto ela cresce ou diminui, não onde ela acontece.
| Variável | Persistência | Jaccard | Ocorrências 2017-21 | Ocorrências 2022-26 |
|---|---|---|---|---|
| Total de ocorrências | 75,7% | 63,5% | 31.667 | 12.802 |
| Ocorrências com morte | 73,0% | 58,7% | 4.789 | 3.015 |
| Com presença policial | 73,0% | 57,1% | 8.228 | 4.735 |
| Sem presença policial | 74,8% | 61,5% | 23.439 | 8.067 |
| Motivo: disputa entre grupos armados | 40,0% | 28,7% | 442 | 904 |
Motivo disputa é a exceção nítida. Apenas 40% dos hexágonos que eram ponto quente de disputa entre grupos armados na primeira metade da série continuavam ponto quente na segunda, a menor persistência territorial das cinco variáveis, e isso apesar de o número de ocorrências por disputa ter mais que dobrado no período, de 442 para 904 registros, o oposto do padrão de queda das outras quatro. Mais dado deveria, se alguma coisa, tornar a classificação mais estável, não menos: o fato de a persistência cair justamente na variável com mais dado novo reforça que a instabilidade territorial da disputa não é um artefato de amostra pequena.
Na prática, os hexágonos que deixaram de ser ponto quente de disputa entre 2017-2021 e 2022-2026 ficavam concentrados em Santa Teresa, Catumbi e arredores, no Rio, e em Jockey, Barreto e Vila Candosa, em Niterói. Os que passaram a ser ponto quente só a partir de 2022 aparecem em Andaraí e Tijuca, na Grande Tijuca, e em Bangu e Itanhangá, na Zona Oeste, com sinal mais fraco também em Campinho, Madureira e Costa Barros. O deslocamento não é uma simples migração de um bairro vizinho pro outro: entre os pontos de saída e de chegada há trechos inteiros da cidade de distância.
A leitura mais direta é que disputa entre grupos armados descreve um território de fato instável, coerente com a própria natureza do motivo: enquanto violência armada em geral tende a se repetir nos mesmos territórios historicamente mais expostos, disputa marca especificamente o momento em que o controle de uma área está sendo contestado, e um território deixa de estar em disputa tanto quando um lado consolida domínio quanto quando o conflito se desloca pra outro lugar. Os dados do Lastro não permitem distinguir essas duas hipóteses, consolidação ou deslocamento, apenas confirmar que o território de disputa muda mais que qualquer outro recorte de violência armada testado.
Nota metodológica
A comparação usa dois cenários específicos por variável, "primeira metade" (2017 a 2021) e "segunda metade" (2022 a 2026), na mesma grade e método descritos na sub-aba Concentração territorial. Célula "ponto quente" segue a classificação de 90% de confiança ou mais (classes 1, 2 e 3 do Gi*); repetindo a comparação só com a classe mais estrita (99% de confiança), o padrão se mantém: disputa cai pra 27% de sobreposição entre os dois períodos (índice de Jaccard, interseção sobre união das células quentes) contra 50% a 57% das outras quatro variáveis, e persistência (fração do território do início que seguia quente no fim) de 36% contra 64% a 70% nas outras quatro.
O Fogo Cruzado não participa da produção desta análise. É usado aqui só como fonte de dados públicos; o cruzamento, os indicadores e as conclusões são inteiramente do Lastro, sem qualquer envolvimento das organizações citadas.
Quem mantém o Lastro não tem vínculo empregatício, ideológico ou político com nenhuma das partes retratadas nos dados, seja poder público, forças de segurança, grupos armados, partidos ou movimentos. O que aparece aqui são padrões que emergem do cruzamento estatístico dos dados, com os mesmos métodos de análise aplicados a qualquer outro assunto, não uma opinião pessoal sobre o tema.
Como citar
Lastro. “Área de disputa entre grupos armados muda de lugar; o resto da violência, não”. Publicado em 3 de setembro de 2026. Disponível em: lastro-rj.vercel.app/descobertas/disputa-muda-de-territorio
