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26 de agosto de 20265 min de leitura

Estelionato ultrapassou o roubo no Rio a partir de 2022

A série mensal de delitos do ISP-RJ separa dois mundos do crime contra o patrimônio: um que precisa de gente na rua, o roubo, e outro que não precisa, o estelionato. Por mais de uma década, a distância entre os dois foi grande e estável. De repente, ela sumiu, e depois se inverteu.

Em 2010, o Estado registrou 24.053 estelionatos contra 120.300 roubos: 20 estelionatos a cada 100 roubos. A proporção oscilou nessa faixa a década inteira, mesmo com o roubo disparando até o pico da série, 208.781 casos em 2016, e depois começando a cair. O que rompeu o padrão não foi o roubo desacelerar. Foi o estelionato acelerar.

Estelionato e roubo no Estado do Rio, por ano
AnoEstelionatoRoubo (total)Estelionato a cada 100 roubos
201024.053120.30020
201336.409126.19029
201636.912208.78118
201941.253199.31421
2022123.841108.393114
2025146.98198.459149
Anos selecionados a cada três, incluindo 2022, o ano da virada.

A virada tem ano: em 2022, pela primeira vez, o Estado registrou mais estelionato (123.841) que roubo (108.393). Não foi um cruzamento passageiro. Em 2025, o estelionato já é 149 a cada 100 roubos, quase uma vez e meia o volume do roubo.

Olhado sozinho, o roubo de rua (a transeunte) mostra a mesma direção com ainda mais força: caiu do seu pico de 93.818 casos, em 2016, pra 27.583 em 2025, queda de 71%. No mesmo intervalo, o estelionato saiu de 36.912 pra 146.981: quase quatro vezes mais, alta de 298%.

O estelionato não é o único crime sem confronto físico que cresce enquanto o roubo cai. O furto (que também não precisa de ameaça nem violência, só descuido da vítima) andou na mesma direção: caiu 28% na pandemia, mas já em 2022 tinha voltado a subir, e em 2025 os 187.984 furtos registrados são o maior volume da década, acima do patamar pré-pandemia de 2019 (154.522 casos). O roubo, no mesmo intervalo, não voltou nem perto do seu próprio patamar antigo. A linha que separa os dois grupos não é bem “crime contra o patrimônio”: é crime que exige a vítima por perto, com ameaça ou violência, contra crime que não exige.

A escalada do estelionato também não é fenômeno só da Capital. Comparando 2010 com 2025, a Capital cresceu 5,2 vezes, a Baixada Fluminense 6,6 vezes, Grande Niterói 6,2 vezes e o Interior, sozinho, quase 9 vezes:

Estelionato por região, 2010 e 2025
Região20102025Multiplicação
Interior4.09436.7109,0x
Baixada Fluminense3.52323.3596,6x
Grande Niterói2.14413.2556,2x
Capital14.29273.6575,2x
Ordenado da maior pra menor multiplicação.

O golpe cresceu em todo canto do Estado, e mais rápido fora da Capital do que dentro dela. Duas categorias vizinhas testam a mesma ideia em escalas menores. A extorsão, que também dispensa presença física do agressor (a ameaça pode vir por telefone ou mensagem), cresceu 159% entre 2010 e 2025, mesma direção do estelionato, só que num volume bem menor. Já o sequestro relâmpago, que exige coagir a vítima pessoalmente, não mostra tendência nenhuma na década, oscilando entre 69 e 198 casos por ano sem direção definida. Onde o crime dispensa contato, ele cresce. Onde não dispensa, não.

O calendário bate com uma mudança conhecida. O Pix, sistema de pagamento instantâneo do Banco Central, entrou em operação em novembro de 2020, pouco antes da aceleração mais forte da série: o estelionato cresce 74% só entre 2021 e 2022. A categoria do ISP é ampla, cobre qualquer fraude patrimonial registrada, não só golpe digital, então o Pix não é a única causa possível, mas a coincidência de tempo é difícil de ignorar.

Parte do crescimento também pode vir do canal de registro, não da incidência: delegacias eletrônicas específicas pra estelionato, que reduzem o custo de denunciar um golpe, se espalharam justamente nesse período. O que essa hipótese não explica é a escala. Multiplicar por seis, de 24 mil pra 147 mil casos por ano, é uma mudança grande demais pra vir só de facilitar o boletim de ocorrência.

O resultado prático é uma inversão de prioridade. Política pública e cobertura de imprensa no Rio ainda giram em torno do roubo, o crime que dominou a conversa pública por décadas. Só que hoje, pelo volume de registro, o problema maior do patrimônio fluminense já não é ser assaltado na rua. É cair num golpe.

Nota metodológica

Os dados vêm da série histórica mensal por delegacia do ISP-RJ (Instituto de Segurança Pública), Estado inteiro, com estelionato reportado desde 2003, o mesmo início da série de roubo. “Roubo” é o total oficial (todas as modalidades registradas: rua, veículo, carga, comércio, residência, banco, coletivo e outras). “Estelionato a cada 100 roubos” é o quociente entre os dois totais anuais, multiplicado por 100. “Furto” é o total oficial (sem ameaça nem violência contra a vítima), usado aqui só como contraponto ao roubo. Regiões conforme classificação oficial do ISP-RJ (Capital, Baixada Fluminense, Grande Niterói e Interior).

Limitações: estelionato é uma categoria ampla do boletim de ocorrência, que cobre qualquer fraude patrimonial, de cheque falso a golpe de investimento a fraude digital, sem diferenciação de meio no dado agregado. Mudança no canal de registro pode ter facilitado parte do crescimento recente, efeito que o dado agregado não separa de mudança na incidência real. A comparação regional usa números absolutos, sem população: uma região maior tende a somar mais casos independente da taxa por habitante. O cruzamento, o indicador e as conclusões são do Lastro e não representam posição do ISP-RJ.

O ISP-RJ não participa da produção desta análise. É usado aqui só como fonte de dados públicos; o cruzamento, os indicadores e as conclusões são inteiramente do Lastro, sem qualquer envolvimento das organizações citadas.

Quem mantém o Lastro não tem vínculo empregatício, ideológico ou político com nenhuma das partes retratadas nos dados, seja poder público, forças de segurança, grupos armados, partidos ou movimentos. O que aparece aqui são padrões que emergem do cruzamento estatístico dos dados, com os mesmos métodos de análise aplicados a qualquer outro assunto, não uma opinião pessoal sobre o tema.

Como citar

Lastro. “Estelionato ultrapassou o roubo no Rio a partir de 2022”. Publicado em 26 de agosto de 2026. Disponível em: lastro-rj.vercel.app/descobertas/era-do-estelionato