Estelionato ultrapassou o roubo no Rio a partir de 2022
A série mensal de delitos do ISP-RJ separa dois mundos do crime contra o patrimônio: um que precisa de gente na rua, o roubo, e outro que não precisa, o estelionato. Por mais de uma década, a distância entre os dois foi grande e estável. De repente, ela sumiu, e depois se inverteu.
Em 2010, o Estado registrou 24.053 estelionatos contra 120.300 roubos: 20 estelionatos a cada 100 roubos. A proporção oscilou nessa faixa a década inteira, mesmo com o roubo disparando até o pico da série, 208.781 casos em 2016, e depois começando a cair. O que rompeu o padrão não foi o roubo desacelerar. Foi o estelionato acelerar.
| Ano | Estelionato | Roubo (total) | Estelionato a cada 100 roubos |
|---|---|---|---|
| 2010 | 24.053 | 120.300 | 20 |
| 2013 | 36.409 | 126.190 | 29 |
| 2016 | 36.912 | 208.781 | 18 |
| 2019 | 41.253 | 199.314 | 21 |
| 2022 | 123.841 | 108.393 | 114 |
| 2025 | 146.981 | 98.459 | 149 |
A virada tem ano: em 2022, pela primeira vez, o Estado registrou mais estelionato (123.841) que roubo (108.393). Não foi um cruzamento passageiro. Em 2025, o estelionato já é 149 a cada 100 roubos, quase uma vez e meia o volume do roubo.
Olhado sozinho, o roubo de rua (a transeunte) mostra a mesma direção com ainda mais força: caiu do seu pico de 93.818 casos, em 2016, pra 27.583 em 2025, queda de 71%. No mesmo intervalo, o estelionato saiu de 36.912 pra 146.981: quase quatro vezes mais, alta de 298%.
O estelionato não é o único crime sem confronto físico que cresce enquanto o roubo cai. O furto (que também não precisa de ameaça nem violência, só descuido da vítima) andou na mesma direção: caiu 28% na pandemia, mas já em 2022 tinha voltado a subir, e em 2025 os 187.984 furtos registrados são o maior volume da década, acima do patamar pré-pandemia de 2019 (154.522 casos). O roubo, no mesmo intervalo, não voltou nem perto do seu próprio patamar antigo. A linha que separa os dois grupos não é bem “crime contra o patrimônio”: é crime que exige a vítima por perto, com ameaça ou violência, contra crime que não exige.
A escalada do estelionato também não é fenômeno só da Capital. Comparando 2010 com 2025, a Capital cresceu 5,2 vezes, a Baixada Fluminense 6,6 vezes, Grande Niterói 6,2 vezes e o Interior, sozinho, quase 9 vezes:
| Região | 2010 | 2025 | Multiplicação |
|---|---|---|---|
| Interior | 4.094 | 36.710 | 9,0x |
| Baixada Fluminense | 3.523 | 23.359 | 6,6x |
| Grande Niterói | 2.144 | 13.255 | 6,2x |
| Capital | 14.292 | 73.657 | 5,2x |
O golpe cresceu em todo canto do Estado, e mais rápido fora da Capital do que dentro dela. Duas categorias vizinhas testam a mesma ideia em escalas menores. A extorsão, que também dispensa presença física do agressor (a ameaça pode vir por telefone ou mensagem), cresceu 159% entre 2010 e 2025, mesma direção do estelionato, só que num volume bem menor. Já o sequestro relâmpago, que exige coagir a vítima pessoalmente, não mostra tendência nenhuma na década, oscilando entre 69 e 198 casos por ano sem direção definida. Onde o crime dispensa contato, ele cresce. Onde não dispensa, não.
O calendário bate com uma mudança conhecida. O Pix, sistema de pagamento instantâneo do Banco Central, entrou em operação em novembro de 2020, pouco antes da aceleração mais forte da série: o estelionato cresce 74% só entre 2021 e 2022. A categoria do ISP é ampla, cobre qualquer fraude patrimonial registrada, não só golpe digital, então o Pix não é a única causa possível, mas a coincidência de tempo é difícil de ignorar.
Parte do crescimento também pode vir do canal de registro, não da incidência: delegacias eletrônicas específicas pra estelionato, que reduzem o custo de denunciar um golpe, se espalharam justamente nesse período. O que essa hipótese não explica é a escala. Multiplicar por seis, de 24 mil pra 147 mil casos por ano, é uma mudança grande demais pra vir só de facilitar o boletim de ocorrência.
O resultado prático é uma inversão de prioridade. Política pública e cobertura de imprensa no Rio ainda giram em torno do roubo, o crime que dominou a conversa pública por décadas. Só que hoje, pelo volume de registro, o problema maior do patrimônio fluminense já não é ser assaltado na rua. É cair num golpe.
Nota metodológica
Os dados vêm da série histórica mensal por delegacia do ISP-RJ (Instituto de Segurança Pública), Estado inteiro, com estelionato reportado desde 2003, o mesmo início da série de roubo. “Roubo” é o total oficial (todas as modalidades registradas: rua, veículo, carga, comércio, residência, banco, coletivo e outras). “Estelionato a cada 100 roubos” é o quociente entre os dois totais anuais, multiplicado por 100. “Furto” é o total oficial (sem ameaça nem violência contra a vítima), usado aqui só como contraponto ao roubo. Regiões conforme classificação oficial do ISP-RJ (Capital, Baixada Fluminense, Grande Niterói e Interior).
Limitações: estelionato é uma categoria ampla do boletim de ocorrência, que cobre qualquer fraude patrimonial, de cheque falso a golpe de investimento a fraude digital, sem diferenciação de meio no dado agregado. Mudança no canal de registro pode ter facilitado parte do crescimento recente, efeito que o dado agregado não separa de mudança na incidência real. A comparação regional usa números absolutos, sem população: uma região maior tende a somar mais casos independente da taxa por habitante. O cruzamento, o indicador e as conclusões são do Lastro e não representam posição do ISP-RJ.
O ISP-RJ não participa da produção desta análise. É usado aqui só como fonte de dados públicos; o cruzamento, os indicadores e as conclusões são inteiramente do Lastro, sem qualquer envolvimento das organizações citadas.
Quem mantém o Lastro não tem vínculo empregatício, ideológico ou político com nenhuma das partes retratadas nos dados, seja poder público, forças de segurança, grupos armados, partidos ou movimentos. O que aparece aqui são padrões que emergem do cruzamento estatístico dos dados, com os mesmos métodos de análise aplicados a qualquer outro assunto, não uma opinião pessoal sobre o tema.
Como citar
Lastro. “Estelionato ultrapassou o roubo no Rio a partir de 2022”. Publicado em 26 de agosto de 2026. Disponível em: lastro-rj.vercel.app/descobertas/era-do-estelionato
