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1 de setembro de 20262 min de leitura

Quanto mais nova a vítima de estupro, maior a chance de o agressor ser da própria família

A base do ISP Mulher não cruza diretamente idade da vítima com relação do agressor: são duas dimensões agregadas separadamente pra cada delito, não uma tabela única. Mas a própria lei brasileira dá um atalho real. O Código Penal separa estupro (art. 213) de estupro de vulnerável (art. 217-A), e o critério que separa os dois é a idade ou a condição da vítima: menor de 14 anos, ou pessoa que por enfermidade, deficiência mental ou qualquer outra causa não tem discernimento para o ato ou não pode oferecer resistência. Comparar os dois delitos é comparar, na prática, um recorte majoritariamente adulto com um majoritariamente infantil.

Faixa etária da vítima, participação sobre o total do delito
Faixa etáriaEstupro de vulnerávelEstupro
0 a 11 anos54,7%7,4%
12 a 17 anos30,5%27,5%
18 a 29 anos5,2%32,3%
30 a 59 anos3,1%27,8%
85,2% das vítimas de estupro de vulnerável têm entre 0 e 17 anos; em estupro comum, 60,1% têm entre 18 e 59 anos.

A separação funciona como esperado: estupro de vulnerável é, de fato, majoritariamente infantil e adolescente. É nesse recorte que a relação com o agressor muda de figura.

Relação com o agressor, participação sobre o total do delito
RelaçãoEstuproEstupro de vulnerável
Pais ou padrastos8,3%19,9%
Parente6,5%14,6%
Soma intrafamiliar14,8%34,5%
Soma intrafamiliar é pais ou padrastos mais parente, somados.

Quando a vítima é predominantemente adulta, pai ou padrasto responde por 8,3% dos casos. Quando é predominantemente criança ou adolescente, essa participação mais que dobra, 19,9%, e somada a outros parentes chega a 34,5%: um em cada três casos de estupro de vulnerável tem o agressor dentro da própria família da vítima. O mesmo padrão se repete na tentativa: 8,9% de agressor intrafamiliar em tentativa de estupro comum, 25,6% em tentativa de estupro de vulnerável.

O que fica: a idade da vítima não é um detalhe entre outros, ela muda quem está do outro lado do crime. Quanto mais nova a vítima, menos o estupro se parece com o ataque de um estranho e mais ele se parece com abuso dentro de casa, cometido por quem deveria proteger.

Nota metodológica

Fonte: painel ISP Mulher, do ISP-RJ, Dossiê Mulher. Faixa etária e relação com o agressor são dimensões agregadas separadamente pra cada delito ao longo de uma década de casos; a base não publica o cruzamento direto entre as duas. O recorte por delito (estupro x estupro de vulnerável) usado aqui é um proxy de idade, não uma tabela cruzada real, e vale exatamente pelo que a lei já separa por definição: se o painel algum dia abrir esse cruzamento direto, esta análise será a primeira a revisitar.

O ISP-RJ não participa da produção desta análise. É usado aqui só como fonte de dados públicos; o cruzamento, os indicadores e as conclusões são inteiramente do Lastro, sem qualquer envolvimento das organizações citadas.

Quem mantém o Lastro não tem vínculo empregatício, ideológico ou político com nenhuma das partes retratadas nos dados, seja poder público, forças de segurança, grupos armados, partidos ou movimentos. O que aparece aqui são padrões que emergem do cruzamento estatístico dos dados, com os mesmos métodos de análise aplicados a qualquer outro assunto, não uma opinião pessoal sobre o tema.

Como citar

Lastro. “Quanto mais nova a vítima de estupro, maior a chance de o agressor ser da própria família”. Publicado em 1 de setembro de 2026. Disponível em: lastro-rj.vercel.app/descobertas/estupro-e-familia