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26 de agosto de 20265 min de leitura

Queda da letalidade violenta no Rio foi desigual entre as regiões

A letalidade violenta do Estado do Rio, soma de homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e morte por intervenção policial, caiu bastante desde o início da série do ISP-RJ, em 2003. Mas a frase “caiu bastante” esconde duas coisas: o caminho não foi reto, e a chegada não foi igual.

O Estado inteiro somou 8.054 mortes violentas em 2003, o maior valor da série. Dali caiu até um vale de 4.666 em 2012, na época da política de pacificação. Depois subiu de novo, 45%, até um novo pico local de 6.749 em 2017, no meio da crise de segurança que levou também à intervenção federal de 2018. Só a partir dali começou a segunda queda, que chegou a 3.809 em 2024, o ponto mais baixo da série, com 2025 estabilizando em 3.892 e 2026 (dado até julho) seguindo a mesma faixa. A trajetória inteira lembra mais um M torto do que uma linha descendo.

A desigualdade aparece quando cada região é medida a partir do seu próprio pico, não do calendário do Estado:

Letalidade violenta por região, do pico até a média de 2023-2025
RegiãoPico (ano)Média 2023-2025Queda desde o pico
Grande Niterói908 (2005)242-73%
Capital3.495 (2003)1.450-59%
Baixada Fluminense2.437 (2003)1.107-55%
Interior1.816 (2018)1.191-34%
Estado8.054 (2003)3.990-50%
2026 fica fora do cálculo de pico e de média por estar incompleto (dado até julho).

Grande Niterói, a menor das quatro regiões, teve a queda mais forte: de 908 mortes no seu pico, em 2005, pra uma média de 242 em 2023-2025. Capital e Baixada Fluminense, as duas regiões mais violentas em números absolutos, caíram entre 55% e 59% desde 2003. O Interior é o único caso realmente diferente: seu pico não veio em 2003, veio em 2018, quinze anos depois das outras três regiões, bem no auge da crise estadual. E, do seu próprio pico até hoje, a queda do Interior é de apenas 34%, menos da metade da queda de Grande Niterói.

Setenta e um municípios formam o Interior, e juntos eles hoje pesam mais que a Baixada Fluminense na letalidade violenta do Estado, o que não acontecia em 2003. A melhora que qualquer manchete estadual anuncia é real, mas ela é, sobretudo, uma melhora da região metropolitana. O Interior participou da alta da crise de 2016-2018 tanto quanto o resto do Estado, ou mais, e ficou de fora de boa parte da recuperação que veio depois.

Essa desigualdade é exclusiva da letalidade violenta, ou vale pra crime em geral? A resposta separa os dois casos. No roubo, contado do pico de cada região até a média de 2023-2025, o Interior caiu 76% (de 16.669 casos, em 2018, pra uma média de 3.968) e Grande Niterói caiu 81% (de 33.600 pra 6.344), as duas maiores quedas percentuais das quatro regiões. Capital caiu 51% e Baixada Fluminense, 54%, as duas menores. No roubo, o Interior, a região que menos melhorou na letalidade violenta, não repete esse atraso:

Queda desde o pico regional: letalidade violenta x roubo
RegiãoLetalidade violentaRoubo
Capital-59%-51%
Baixada Fluminense-55%-54%
Grande Niterói-73%-81%
Interior-34%-76%
Cada região comparada ao seu próprio pico, do mesmo jeito que a tabela anterior.

A inversão importa porque descarta a explicação mais óbvia. Se o Interior estivesse simplesmente andando atrás do resto do Estado em tudo, policiamento, investimento, presença do Estado, a defasagem apareceria nos dois indicadores. Ela só aparece na letalidade violenta. O que fica pra trás no Interior não é o combate ao crime de um modo geral: é especificamente o confronto armado, homicídio, latrocínio, morte por intervenção policial, o tipo de violência mais associado à disputa territorial entre grupos armados e ao policiamento de guerra. Por que essa violência específica resiste mais fora da Região Metropolitana é pergunta que este dado não fecha, mas ele deixa claro que a explicação não pode ser genérica.

Dois casos concretos dão corpo ao número. Campos dos Goytacazes, a maior cidade do Interior, foi de uma média de 135,7 mortes violentas por ano em 2003-2005 pra 121,7 em 2023-2025: vinte anos de estagnação, praticamente no mesmo patamar. Barra Mansa, no Médio Paraíba, foi na direção oposta, de uma média de 46,7 mortes por ano no início da série pra 71,3 agora, alta de 53%, um município que ficou mais violento enquanto o Estado, no agregado, ficava mais seguro.

Nota metodológica

Regiões conforme classificação oficial do ISP-RJ (Capital, Baixada Fluminense, Grande Niterói e Interior, esta última com 71 municípios). O pico de cada região é o maior valor anual de letalidade violenta entre 2003 e 2025, com o mesmo cálculo repetido pra roubo (soma de todas as modalidades oficiais). A média de 2023-2025 usa os três últimos anos completos da série. Campos dos Goytacazes e Barra Mansa foram escolhidas por terem série completa e sem lacuna em 2003-2005; vários municípios menores do Interior têm dado ausente nesse início de série, o que impede comparação direta de início a fim para eles.

Limitações: mudanças na divisão de delegacias e batalhões ao longo de duas décadas podem afetar a alocação de casos entre municípios vizinhos em anos de transição, sem mudar o total estadual. A regionalização oficial agrupa municípios inteiros: dentro de uma mesma região pode haver municípios com trajetória bem diferente da média regional, como mostram os dois casos citados. A comparação entre letalidade violenta e roubo descreve uma diferença, não explica sua causa. O cruzamento, o indicador e as conclusões são do Lastro e não representam posição do ISP-RJ.

O ISP-RJ não participa da produção desta análise. É usado aqui só como fonte de dados públicos; o cruzamento, os indicadores e as conclusões são inteiramente do Lastro, sem qualquer envolvimento das organizações citadas.

Quem mantém o Lastro não tem vínculo empregatício, ideológico ou político com nenhuma das partes retratadas nos dados, seja poder público, forças de segurança, grupos armados, partidos ou movimentos. O que aparece aqui são padrões que emergem do cruzamento estatístico dos dados, com os mesmos métodos de análise aplicados a qualquer outro assunto, não uma opinião pessoal sobre o tema.

Como citar

Lastro. “Queda da letalidade violenta no Rio foi desigual entre as regiões”. Publicado em 26 de agosto de 2026. Disponível em: lastro-rj.vercel.app/descobertas/grande-queda-desigual