Letalidade sem ação policial é maior em área de milícia do que de tráfico
Todo debate sobre segurança pública, mais cedo ou mais tarde, chega numa promessa parecida: ordem à força, menos bagunça, a paz que sobra depois do endurecimento. A milícia do Rio de Janeiro vende essa mesma promessa no seu próprio território há duas décadas, numa escala menor e testada há muito mais tempo que qualquer modelo importado: onde ela manda não tem tiroteio, não tem “guerra”, a rotina parece funcionar. Esta análise mede se essa promessa se sustenta, comparando o regime de controle territorial da milícia com o outro regime que também domina território no Rio, o das facções de tráfico.
Desde a CPI das Milícias de 2008, pesquisadores vêm apontando que essa percepção confunde ausência de confronto com ausência de violência. O que faltava era medir essa diferença de forma sistemática, com série longa. Foi o que este estudo fez.
O Lastro cruzou 21.759 ocorrências de violência armada registradas pelo Fogo Cruzado entre 2017 e 2026 com a classificação anual de domínio territorial da Região Metropolitana produzida pelo Mapa Histórico dos Grupos Armados. Cada ocorrência foi comparada com o mapa do seu próprio ano, um cuidado necessário porque território de grupo armado não é estático: áreas mudaram de mãos várias vezes ao longo da década. O indicador central é simples e difícil de manipular: mortos a cada 100 ocorrências registradas, separando os episódios com e sem ação policial.
Na década somada, os registros sem ação policial deixam cerca de 19 mortos a cada 100 ocorrências nas áreas sob domínio de milícia. Nas áreas sob domínio das facções de tráfico, esse número fica entre 4 e 8: 7 nas áreas do Comando Vermelho, 8 nas do Terceiro Comando Puro e 4 nas do ADA. Somando os quatro domínios numa única média, ponderada pelo número de ocorrências de cada um, o resultado é 9,7 mortos a cada 100: a taxa da milícia é quase o dobro dessa média conjunta, não apenas a maior de quatro números próximos. E o padrão não depende do recorte agregado. Aberto ano a ano, ele se repete nos dez anos da série, sem exceção:
| Ano | Milícia | CV | TCP | ADA |
|---|---|---|---|---|
| 2017 | 21,1 | 10,9 | 8,2 | 11,4 |
| 2018 | 8,7 | 4,9 | 6,0 | 2,5 |
| 2019 | 13,7 | 5,0 | 4,7 | 4,0 |
| 2020 | 16,1 | 3,4 | 1,4 | 4,6 |
| 2021 | 11,5 | 5,4 | 4,4 | 1,5 |
| 2022 | 18,3 | 6,2 | 6,0 | 6,9 |
| 2023 | 29,3 | 13,5 | 11,7 | 13,6 |
| 2024 | 29,4 | 8,2 | 13,2 | 3,7 |
| 2025 | 37,1 | 23,8 | 9,6 | 0,0* |
| 2026 | 50,4 | 24,7 | 21,5 | 0,0* |
Duas leituras saltam da tabela. A primeira: em todos os anos, a área de milícia lidera a letalidade dos episódios sem polícia, quase sempre com folga. A segunda: a partir de 2023 tudo sobe, em todos os regimes. Há menos ocorrências registradas do que no pico de 2018, mas cada episódio mata mais. A violência fluminense está ficando mais eficiente, e esse é um dado que merece análise própria.
Quando há ação policial envolvida, a letalidade é praticamente idêntica em qualquer território: entre 40 e 43 mortos a cada 100 ocorrências na década, não importa quem domina a área. E esse regime tem sua própria escala de extremos: a megaoperação de 28 de outubro de 2025 no Complexo da Penha deixou 122 mortos num único episódio, o mais letal de toda a série. Toda a diferença entre os territórios está no que acontece quando o Estado não é parte do episódio. É ali, na violência que os próprios regimes produzem, que os modelos se separam.
A leitura é consistente com o que a literatura sobre governança criminal descreve. O tráfico de varejo defende ponto de venda: sua violência é o confronto, a disputa de fronteira, o tiroteio aberto que qualquer morador ouve e qualquer imprensa registra. É uma violência barulhenta e, por ocorrência, pouco letal: a maioria dos tiroteios não mata ninguém. A milícia opera outra economia: cobra taxa de segurança, controla transporte, gás, imóvel, internet. Seu instrumento não é o confronto, é a disciplina. Quando essa violência aparece no registro, ela tende a ser seletiva e certeira. Menos episódios, mais morte por episódio.
Os bairros contam essa história melhor que qualquer coeficiente. Na década, Vila Kennedy, área de tráfico, acumulou 1.299 registros sem ação policial e 36 mortos: 2,8 por 100. O Complexo do Alemão, 693 registros e 2 mortos: 0,3 por 100. Do lado da milícia, Cascadura teve 356 registros e 53 mortos (14,9 por 100) e Santa Cruz, 322 registros e 75 mortos (23,3 por 100). Onde se ouve mais tiro não é onde cada tiro mais mata. O contraste do Alemão deixa o mecanismo explícito: os mesmos dez anos somam ali 100 mortos nos episódios com ação policial. A morte naquele território chega quase inteiramente com a operação; a de área de milícia chega sem ninguém fardado no registro.
Há ainda uma camada que os números não mostram, e que qualquer pesquisador do tema conhece: o silêncio. O Fogo Cruzado registra o que é reportado, e reportar violência em área de milícia tem custo diferente de reportar tiroteio em área de facção. Mas o efeito desse silêncio sobre a taxa medida aqui não é óbvio, e pode até ir no sentido contrário do que parece à primeira vista: uma execução tende a chegar ao registro por outra via mesmo sem denúncia direta, o corpo aparece, a família procura a delegacia, o legista lavra o laudo. Já a cobrança que termina em ameaça ou agressão, sem morte, deixa menos rastro físico e menos incentivo pra vítima denunciar, sob risco de retaliação. Se o que mais falta no registro é a violência sem morte, não a morte em si, o denominador desta conta fica mais subnotificado que o numerador, e a taxa medida aqui tenderia a superestimar a letalidade por ocorrência da milícia, não subestimar. Não dá pra cravar a direção do viés só com este dado, só reconhecer que ele existe e que não é óbvio pra qual lado pende.
A implicação para política pública é direta. Os indicadores tradicionais de segurança no Rio foram desenhados para enxergar confronto: tiroteio, apreensão, ocupação de território. São instrumentos que capturam bem a violência do tráfico e mal a da milícia, que aparece pouco nesses filtros justamente por operar em silêncio. Um território pode melhorar em todos os indicadores de confronto enquanto muda de regime de violência, não de nível. Medir letalidade por episódio, separando a participação do Estado, é uma forma de corrigir essa miopia.
Nota metodológica
Os registros de ocorrência vêm do Fogo Cruzado (2017 a agosto de 2026, Região Metropolitana do Rio de Janeiro). A classificação de domínio territorial vem do Mapa Histórico dos Grupos Armados (GENI/UFF e Instituto Fogo Cruzado), construído a partir de denúncias do Disque Denúncia, com um mapa por ano de 2007 a 2024; ocorrências de 2025 e 2026 foram comparadas com o mapa de 2024, o mais recente disponível. “Letalidade” é o número de mortos dividido pelo número de ocorrências registradas. A média conjunta dos quatro domínios soma as ocorrências e os mortos dos quatro antes de dividir (média ponderada), não é a média simples das quatro taxas já arredondadas.
Limitações: o Fogo Cruzado registra o que é reportado, com provável subnotificação maior em área de milícia; a direção desse viés sobre a taxa medida não é óbvia, e pode até apontar pro lado de superestimar a letalidade por ocorrência da milícia, não de subestimar (ver texto acima). Episódios extremos podem dominar os números com ação policial de um ano, como a megaoperação de outubro de 2025. Nas células com poucas dezenas de registros (áreas ADA nos anos recentes), a taxa anual perde precisão. A morte ocorrer em área dominada por um grupo não significa que foi cometida por esse grupo: esta análise descreve regimes de violência por território, não autoria. O cruzamento, o indicador e as conclusões são do Lastro e não representam posição das instituições citadas.
O Fogo Cruzado não participa da produção desta análise. É usado aqui só como fonte de dados públicos; o cruzamento, os indicadores e as conclusões são inteiramente do Lastro, sem qualquer envolvimento das organizações citadas.
Quem mantém o Lastro não tem vínculo empregatício, ideológico ou político com nenhuma das partes retratadas nos dados, seja poder público, forças de segurança, grupos armados, partidos ou movimentos. O que aparece aqui são padrões que emergem do cruzamento estatístico dos dados, com os mesmos métodos de análise aplicados a qualquer outro assunto, não uma opinião pessoal sobre o tema.
Como citar
Lastro. “Letalidade sem ação policial é maior em área de milícia do que de tráfico”. Publicado em 21 de agosto de 2026. Disponível em: lastro-rj.vercel.app/descobertas/letalidade-milicia
