Isolamento de 2020 teve impacto desigual entre os tipos de crime no Rio
Pesquisador de crime sonha com experimento controlado: isolar uma variável, medir o efeito, sem depender só de correlação. Em março de 2020, o Rio ganhou um sem querer. O decreto de isolamento social, que esvaziou rua, transporte público e comércio quase da noite pro dia, funciona como um choque: não foi desenhado pra testar nada sobre crime, mas separa com uma nitidez rara os delitos que dependem de gente circulando dos que não dependem.
Pra medir o efeito sem misturar com a variação normal de início de ano, cada mês de 2020 foi comparado com a média de janeiro e fevereiro do mesmo ano, os dois meses completos antes do isolamento, que começou em 17 de março.
| Tipo de delito | Abril | Maio | Junho |
|---|---|---|---|
| Furto a transeunte | -87% | -88% | -84% |
| Furto de celular | -85% | -82% | -81% |
| Roubo em coletivo | -61% | -66% | -53% |
| Roubo de rua (agregado, inclui o item acima) | -57% | -59% | -53% |
| Roubo de veículo | -40% | -49% | -44% |
| Estelionato | -31% | -5% | +39% |
| Furto de veículo | -28% | -29% | -25% |
| Apreensão de drogas | -17% | -9% | -13% |
| Homicídio doloso | -9% | -20% | -24% |
| Tráfico de drogas | +5% | +7% | -7% |
| Letalidade violenta | -3% | -20% | -42% |
A ordem não é aleatória: é um gradiente do mais dependente de circulação de gente pro menos dependente. No topo, furto a transeunte e furto de celular, que só acontecem com o dono por perto mas sem confronto, praticamente desaparecem: -87% e -85% em abril, os maiores tombos da tabela, maiores até que os do roubo. Roubo em coletivo, dentro de ônibus ou metrô, vem na sequência, com queda parecida (-61% em abril); roubo de rua, categoria mais ampla do ISP-RJ que já soma roubo em coletivo com roubo a transeunte e de celular, cai de forma semelhante (-57%), o mesmo sinal aparecendo em dois níveis de agregação do mesmo tipo de delito, não uma segunda confirmação independente. No fundo da tabela, tráfico de drogas nem cai: fica estatisticamente no zero, +5% em abril e +7% em maio, como se prisão por tráfico não dependesse em nada de pedestre circulando. Homicídio doloso e letalidade violenta ficam perto do tráfico, não perto do roubo.
O furto de veículo mostra que a categoria “crime sem violência” não é homogênea. Furto a transeunte e de celular precisam do dono por perto; furto de veículo é majoritariamente carro estacionado, sem ninguém observando, e cai bem menos, 28% em abril. A mesma lógica separa roubo de veículo (-40%, alguém é abordado) de furto de veículo (-28%, o carro é levado sem ninguém ver): é o mesmo objeto, mas o crime que precisa flagrar o dono reage ao isolamento muito mais do que o crime que não precisa.
As duas linhas que fogem do gradiente com o tempo são as mais interessantes. O estelionato caiu 31% em abril, junto com a paralisia geral da economia, mas a queda praticamente zerou em maio (-5%) e virou alta de 39% já em junho: nenhum outro tipo de delito na tabela muda de sinal tão rápido. A letalidade violenta fez o caminho inverso, quase não caiu no primeiro mês do isolamento e só afundou depois, -20% em maio e -42% em junho, como se o efeito sobre o confronto armado demorasse mais pra aparecer do que o efeito sobre o crime de rua.
O padrão se confirma numa segunda dose, mais fraca. Em março de 2021, o Rio teve uma nova onda de restrições, bem mais branda e mais curta que a de 2020. O efeito bateu na mesma direção, só que numa proporção menor: o roubo de rua, que vinha de uma média de 6.343 casos em janeiro e fevereiro de 2021, caiu pra 5.385 em abril, queda de 15%, uma fração da queda de 57% que o mesmo mês tinha sofrido em 2020. Restrição menor, efeito menor, na mesma direção: é o que se espera de uma relação de verdade, não de uma coincidência de calendário.
Passados cinco anos, os efeitos do isolamento se separam em dois grupos bem diferentes. O furto, que não depende de confronto, voltou a crescer assim que a rua reabriu: os 110.903 furtos de 2020 já eram 187.984 em 2025, recorde da série. O roubo de rua e o roubo de veículo, que dependem de abordar alguém, nunca voltaram: o roubo de veículo, que tinha chegado a 54.366 casos no pico de 2017, ainda estava em 25.235 em 2025, praticamente parado no mesmo platô da pandemia. Abril de 2020 não foi só um choque passageiro pra esses dois tipos de roubo. Foi o início de um platô que dura até hoje.
O achado central é que abril de 2020 funciona como régua: mede, delito por delito, o quanto cada um depende fisicamente de gente na rua, gente que possa ser flagrada, abordada ou roubada. E ele ajuda a explicar, em parte, por que o roubo nunca mais voltou ao patamar de antes (outra análise desta aba): o choque de 2020 pegou um tipo de crime que já vinha perdendo espaço pro crime remoto, e empurrou essa transição mais rápido.
Nota metodológica
O isolamento social no Rio começou em 17 de março de 2020. A base de comparação é a média de janeiro e fevereiro de 2020, os dois meses completos anteriores ao decreto, pra isolar o efeito do choque sem misturar com a variação normal entre anos diferentes. Dados da série mensal do ISP-RJ, Estado inteiro. “Apreensão de drogas” é o registro oficial da apreensão em si, independente de haver ou não autor identificado; “tráfico de drogas” é a classificação penal do delito. A checagem de 2021 usa a mesma lógica de baseline, janeiro e fevereiro daquele ano, antes da nova onda de restrições de março.
Limitações: comparar com janeiro e fevereiro do mesmo ano evita viés de tendência entre anos, mas não isola o isolamento social de outros fatores simultâneos, como mudança na rotina do próprio policiamento no período. O corte mensal e estadual não mostra o efeito semana a semana nem cidade a cidade. A checagem de 2021 é confirmatória, não uma segunda análise completa: mede só o roubo de rua, sem repetir a tabela inteira. Esta análise descreve a diferença entre os totais registrados antes e depois de cada choque, não uma inferência causal formal. O cruzamento e as conclusões são do Lastro e não representam posição do ISP-RJ.
O ISP-RJ não participa da produção desta análise. É usado aqui só como fonte de dados públicos; o cruzamento, os indicadores e as conclusões são inteiramente do Lastro, sem qualquer envolvimento das organizações citadas.
Quem mantém o Lastro não tem vínculo empregatício, ideológico ou político com nenhuma das partes retratadas nos dados, seja poder público, forças de segurança, grupos armados, partidos ou movimentos. O que aparece aqui são padrões que emergem do cruzamento estatístico dos dados, com os mesmos métodos de análise aplicados a qualquer outro assunto, não uma opinião pessoal sobre o tema.
Como citar
Lastro. “Isolamento de 2020 teve impacto desigual entre os tipos de crime no Rio”. Publicado em 26 de agosto de 2026. Disponível em: lastro-rj.vercel.app/descobertas/lockdown-experimento-natural
