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2 de setembro de 20267 min de leitura

Renda anda em direções opostas com violência letal e crime patrimonial comercial

Cruzando a renda mediana de cada delegacia do Rio de Janeiro com sete indicadores oficiais do ISP-RJ, nas 137 delegacias do Estado, aparecem dois padrões que vão em direções opostas. Homicídio doloso, letalidade violenta, CVLI e tentativa de homicídio caem conforme a renda da área sobe. Furto em coletivo, outros furtos e roubo a estabelecimento comercial fazem o contrário, sobem junto com a renda. Não é o mesmo fenômeno medido duas vezes com o sinal trocado, são dois tipos de crime seguindo lógicas diferentes, e os dois aparecem com clareza no próprio dado oficial do Instituto de Segurança Pública (ISP-RJ).

O primeiro padrão, o mais repetido no debate público sobre segurança no Brasil, é a violência letal caindo onde a renda é maior. O homicídio doloso, morte intencional que não entra em latrocínio nem intervenção policial, teve taxa média de 72,6 por 100 mil habitantes nas 137 DPs entre 2022 e 2025, e correlação de -0,307 com a renda mediana (Pearson), confirmada por -0,282 no Spearman, que não exige uma linha reta, só uma relação consistente e sempre na mesma direção. Os outros três indicadores repetem o desenho: letalidade violenta, que soma ao homicídio doloso o latrocínio, a lesão corporal seguida de morte e a morte por intervenção policial, tem correlação de -0,279; CVLI, Crimes Violentos Letais Intencionais, medida que o próprio ISP-RJ usa pra somar a violência letal mais grave, tem -0,280; e tentativa de homicídio, que mede a mesma violência intencional sem o desfecho fatal, tem -0,256.

Correlação entre renda mediana e taxa de violência letal, por delegacia (2022-2025, 137 DPs)
IndicadorPearsonSpearmanTaxa média /100 mil hab.
Homicídio doloso-0,307-0,28272,6
Letalidade violenta-0,279-0,17492,2
CVLI-0,280-0,26576,2
Tentativa de homicídio-0,256-0,19088,2
Renda mediana do responsável pelo domicílio, Censo 2022, por área de delegacia.

Nos quatro indicadores, Pearson e Spearman sempre concordam na direção e ficam numa faixa parecida um do outro, entre -0,174 e -0,307. O padrão resiste quando a conta é repetida por Batalhão (BPM) em vez de por delegacia, e quando é restrita só às delegacias da Região Metropolitana, o que descarta a hipótese de que o resultado seja apenas capital com renda mais alta e menos violência disfarçado de padrão de renda. E, diferente do segundo padrão descrito abaixo, aqui nenhuma DP isolada distorce a conta: tirar a delegacia mais extrema da lista praticamente não muda o coeficiente, sinal de que a relação vem do conjunto das 137 delegacias, não de um caso fora da curva puxando a média sozinho.

O segundo padrão vai no sentido contrário, e só aparece com clareza depois de tirar da conta uma delegacia que distorce qualquer comparação feita com ela dentro: a 1ª DP, que cobre a Praça Mauá e o entorno, no Centro do Rio. Segundo o Censo 2022, moram ali 1.773 pessoas, um número minúsculo pros padrões do Estado. Só que essa é também a maior confluência comercial e de transporte do Rio, estação de trem, estações de metrô, terminais de ônibus, sede de bancos e repartições, gente que trabalha ali, passa ali, embarca e desembarca ali todos os dias sem morar ali. Quando um crime acontece nessa área, por menor que seja em número absoluto, ele vira uma taxa “por 100 mil habitantes residentes” astronômica, porque o denominador, população que de fato mora ali, é pequeno demais perto do tanto de gente que circula pela região. Furto em coletivo, dentro de ônibus, van ou vagão de metrô, chega a 51.619,5 casos por 100 mil habitantes na 1ª DP, contra uma média de 175,8 nas outras 136 delegacias, quase 294 vezes a média; roubo a estabelecimento comercial vai a 2.538,67 por 100 mil ali, contra média de 40,9 nas demais, quase 62 vezes. Isso não quer dizer que o dado da 1ª DP está errado, quer dizer que taxa por habitante residente não é a métrica certa pra medir risco numa área essencialmente comercial, e deixá-la dentro da conta distorce a comparação com bairros residenciais de qualquer faixa de renda. Por isso, só neste segundo padrão, ela foi excluída do cálculo.

Cruzando a renda mediana com a taxa de cada crime por 100 mil habitantes, somada de 2022 a 2025, nas 136 delegacias restantes depois de tirar a 1ª DP, os três indicadores apontam pro mesmo lado: furto em coletivo tem correlação de 0,444, outros furtos de 0,580, roubo a estabelecimento comercial de 0,538. Com a 1ª DP dentro da conta, essas mesmas correlações caem quase a zero, 0,020, 0,060 e 0,093, respectivamente, o que confirma que o outlier estava escondendo o padrão em vez de fazer parte dele. E o padrão se mantém quando a mesma conta é refeita trocando delegacia por batalhão da PM, 40 batalhões no lugar de 137 delegacias, com números praticamente iguais aos de antes.

Correlação entre renda e taxa de crime patrimonial comercial, sem a 1ª DP (2022-2025)
IndicadorPor delegacia (sem a 1ª DP)Por batalhão
Furto em coletivo0,4440,424
Outros furtos0,5800,559
Roubo a estabelecimento comercial0,5380,578
136 delegacias (137 menos a 1ª DP) e 40 batalhões, ambos 2022 a 2025.

A leitura mais plausível pros dois padrões, e é leitura, não prova, é que eles obedecem a lógicas diferentes. O crime patrimonial comercial vai atrás do dinheiro: área mais rica tem mais comércio, mais celular caro, mais gente andando na rua com algo que vale a pena levar, mais alvo pro crime oportunista de ocasião. A violência letal segue outra lógica, a da disputa territorial entre grupos armados e da presença mais fraca do Estado, que tende a se concentrar onde a renda é mais baixa. Os dois padrões não se contradizem, eles descrevem fenômenos diferentes: um é sobre território e controle, o outro é sobre oportunidade e valor. Juntos, sugerem que renda mais alta protege contra um tipo de crime e não protege, ou até atrai, outro.

Nenhuma das duas correlações prova causa. Renda mais baixa pode andar junto de outros fatores que também empurram a violência letal, como cobertura mais fraca de serviços públicos ou disputa territorial de grupos armados; renda mais alta pode andar junto de mais comércio e mais bens de valor circulando, que atraem o crime patrimonial. O que os dois achados permitem, testados de forma independente e sob o mesmo desenho de verificação, reproduzir a conta do zero, trocar delegacia por batalhão, testar só na Região Metropolitana e testar sem a unidade mais extrema (ou, no caso do crime comercial, sem a 1ª DP), é descartar a explicação mais preguiçosa, a de que algum desses números é fruto de erro de cálculo ou de uma única delegacia fora da curva.

Nota metodológica

A renda mediana do responsável pelo domicílio vem do Censo 2022, do IBGE, recalculada por delegacia através da sobreposição geográfica entre os setores censitários e a área de cada uma das 137 delegacias do Estado. A taxa de cada indicador soma os anos completos de 2022 a 2025, os quatro anos mais recentes disponíveis no ISP-RJ, período pareado com o ano do Censo. Foram calculados dois coeficientes, Pearson, que mede relação linear direta, e Spearman, que mede se a relação é consistente mesmo quando não segue uma linha reta, e os resultados foram checados de forma independente: reproduzindo a conta do zero, repetindo por Batalhão (BPM) em vez de por delegacia e restringindo a análise só às delegacias da Região Metropolitana. Na violência letal, a checagem adicional foi remover a DP mais extrema da lista; no crime patrimonial comercial, a checagem equivalente é a própria exclusão da 1ª DP, pelo motivo explicado no texto acima. Entre as 137 DPs, a renda mediana varia de R$ 1.249 a R$ 12.180.

A unidade de análise é a delegacia, não o indivíduo nem o bairro, então os dois resultados descrevem padrões territoriais, não o risco de uma pessoa específica nem quem é vítima dentro de cada área. Correlação, mesmo confirmada por vários testes como nos dois casos, não isola causa: outros fatores que também variam com a renda, e que esta conta não mede diretamente, podem estar por trás dos padrões observados.

O ISP-RJ não participa da produção desta análise. É usado aqui só como fonte de dados públicos; o cruzamento, os indicadores e as conclusões são inteiramente do Lastro, sem qualquer envolvimento das organizações citadas.

Quem mantém o Lastro não tem vínculo empregatício, ideológico ou político com nenhuma das partes retratadas nos dados, seja poder público, forças de segurança, grupos armados, partidos ou movimentos. O que aparece aqui são padrões que emergem do cruzamento estatístico dos dados, com os mesmos métodos de análise aplicados a qualquer outro assunto, não uma opinião pessoal sobre o tema.

Como citar

Lastro. “Renda anda em direções opostas com violência letal e crime patrimonial comercial”. Publicado em 2 de setembro de 2026. Disponível em: lastro-rj.vercel.app/descobertas/renda-direcoes-opostas