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2 de setembro de 20266 min de leitura

Tipo de construção prevê roubo a residência melhor que renda, mas só na capital

O Lastro testou primeiro, como faz em toda Evidência desta leva, se o tipo de construção de uma área, se ela é dominada por casa ou por apartamento, ajuda a entender o roubo a residência melhor do que a renda sozinha, olhando pro Estado do Rio inteiro, nas 137 delegacias. A resposta, no Estado como um todo, é não. O percentual de domicílios em apartamento por delegacia, dado do Censo 2022, a mesma fonte já usada pra população e renda nesta leva, correlaciona 0,195 com a taxa de roubo a residência, quase idêntico aos 0,186 que a renda mediana sozinha já entregava. O motivo é que os dois números medem, na prática, a mesma coisa: renda e percentual de apartamento andam juntos com correlação de 0,853 entre si. Descontado esse efeito, sobra quase nada de tipo de construção que a renda já não explicasse, uma correlação parcial de apenas 0,07 nas 137 delegacias do Estado.

O quadro muda dentro da capital. Nas 41 delegacias do município do Rio de Janeiro, o percentual de apartamento correlaciona 0,517 com a taxa de roubo a residência, bem mais forte que os 0,307 da renda sozinha no mesmo recorte, e o principal, sobra uma correlação parcial de 0,50 depois de descontar a renda: quase toda a força dessa correlação continua de pé mesmo controlando por renda. Correlação parcial mede o quanto duas variáveis andam juntas depois de tirar o efeito de uma terceira, aqui a renda; se ela caísse perto de zero, como aconteceu no Estado inteiro, o tipo de construção não estaria dizendo nada que a renda já não dissesse. Não é o caso na capital: mesmo entre delegacias de renda parecida, quem tem mais apartamento tende a ter taxa de roubo a residência mais alta, um padrão que a renda sozinha não capta.

Correlação entre % de apartamento e taxa de roubo a residência, dentro da capital, em quatro recortes
Recorte da contaCorrelação brutaCorrelação parcial (descontando renda)O que o teste descarta
Linha de base (41 DPs)0,5170,50linha de base
Sem a DP com maior taxa (40 DPs)0,4760,35que uma única DP fora da curva puxe o resultado
Por batalhão (17 BPMs)0,6150,58que o padrão seja efeito de como as delegacias foram agregadas
Por posto, não por valor (Spearman)0,5140,28que o padrão dependa de uma relação linear perfeita entre as variáveis
Delegacias e batalhões do município do Rio de Janeiro, roubo a residência de 2022 a 2025.

O padrão dentro da capital passou pelas mesmas quatro checagens de robustez usadas nas outras Evidências desta leva, adaptadas pra uma correlação parcial em vez de uma correlação simples. Tirando da conta a delegacia com a maior taxa, possível ponto fora da curva puxando o resultado sozinho, a correlação parcial cai de 0,50 para 0,35, ainda longe de zero. Repetindo a conta por batalhão da PM em vez de por delegacia, 17 batalhões no lugar de 41 delegacias, a correlação parcial sobe para 0,58. E trocando o coeficiente de Pearson por Spearman, que compara postos em vez de valores brutos e por isso pesa menos um punhado de delegacias extremas, a correlação parcial cai para 0,28, mais modesta, mas ainda positiva. Nenhuma das quatro checagens zerou o efeito do tipo de construção nem trocou o sinal.

A leitura mais plausível pro sinal positivo, e é leitura, não prova, vai no sentido oposto da intuição de que prédio protege mais que casa. Um edifício concentra bem mais valor debaixo do mesmo teto do que uma casa isolada, dezenas de domicílios, bens e moradores num só endereço, o que o torna um alvo mais denso e mais rentável por assalto, atraente justamente pra quadrilha armada especializada em invadir prédio, rendendo o porteiro, subindo de elevador, roubando vários apartamentos numa mesma ação. É a mesma lógica de concentração de valor que já aparece na Evidência sobre crime patrimonial comercial: área com mais valor concentrado atrai mais roubo, não menos, mesmo tendo mais segurança física por perto. Vale registrar ainda um possível viés de registro: condomínio tem síndico, portaria e seguro, canais que facilitam formalizar a ocorrência na delegacia, enquanto o mesmo tipo de roubo numa casa isolada pode chegar à polícia com menos frequência, o que infla parte da diferença de taxa sem que o risco real seja necessariamente tão desigual assim. Não dá pra separar, só com esses números, quanto vem de risco maior de fato e quanto vem desse efeito de registro. No Estado inteiro essa distinção quase não aparece separada da renda porque as duas variáveis andam coladas, renda alta significa, quase sempre, mais apartamento; dentro da capital, onde o tecido urbano é mais denso e mais variado, área de renda parecida pode ter proporção de apartamento bem diferente, um bairro verticalizado ao lado de outro ainda dominado por casa, e é exatamente essa variação que deixa aparecer o efeito do tipo de construção por conta própria.

Vale registrar duas ressalvas que qualquer correlação parcial carrega. Primeira, o tamanho da amostra: 41 delegacias e, na checagem por batalhão, só 17 unidades, dá pra ver um padrão consistente, mas não é uma base grande o bastante pra tratar o número como definitivo. Segunda, correlação parcial não isola causa nenhuma: outro fator não medido aqui, densidade populacional, presença de segurança privada, verticalização por outro motivo que não renda, pode estar por trás dos dois números ao mesmo tempo. O que dá pra afirmar com mais confiança, porque o padrão resistiu a trocar delegacia por batalhão, a tirar a delegacia mais extrema e a usar um método mais robusto a valor fora da curva, é que tipo de construção carrega informação sobre roubo a residência que a renda sozinha não carrega, mas só dentro da capital. No resto do Estado, onde casa e apartamento seguem quase sempre a régua da renda, essa distinção não ajuda em nada.

Nota metodológica

O percentual de apartamento por delegacia vem do Censo 2022, do IBGE, tema “Características do Domicílio - Parte 1” dos Agregados por Setores Censitários (variáveis V00047 a V00052: domicílios particulares permanentes ocupados por espécie, casa, casa de vila ou condomínio, apartamento, habitação em casa de cômodos ou cortiço, habitação indígena, estrutura degradada), recalculado por delegacia pela mesma sobreposição geográfica entre setor censitário e área da DP já usada pra população, domicílios e renda nesta leva. Correlação parcial foi calculada pela fórmula padrão, subtraindo o produto das duas correlações simples com a terceira variável (renda) do numerador e normalizando pela variância que sobra em cada uma. “Capital” segue a mesma regionalização oficial do ISP-RJ já usada como recorte de checagem nas outras Evidências desta leva, o município do Rio de Janeiro, 41 delegacias e 17 batalhões. Os dados de roubo a residência somam os anos completos de 2022 a 2025.

A unidade de análise é a delegacia, ou o batalhão na checagem equivalente, não o indivíduo nem o domicílio isolado, e o resultado descreve um padrão territorial dentro da capital, não o risco de uma residência específica. Como em toda correlação entre áreas, o padrão não isola causa: outros fatores que também variam com tipo de construção e com renda, e que esta conta não mede diretamente, podem estar por trás dele.

O ISP-RJ não participa da produção desta análise. É usado aqui só como fonte de dados públicos; o cruzamento, os indicadores e as conclusões são inteiramente do Lastro, sem qualquer envolvimento das organizações citadas.

Quem mantém o Lastro não tem vínculo empregatício, ideológico ou político com nenhuma das partes retratadas nos dados, seja poder público, forças de segurança, grupos armados, partidos ou movimentos. O que aparece aqui são padrões que emergem do cruzamento estatístico dos dados, com os mesmos métodos de análise aplicados a qualquer outro assunto, não uma opinião pessoal sobre o tema.

Como citar

Lastro. “Tipo de construção prevê roubo a residência melhor que renda, mas só na capital”. Publicado em 2 de setembro de 2026. Disponível em: lastro-rj.vercel.app/descobertas/tipo-de-construcao-e-roubo-a-residencia